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Reeducação Postural
Global-Estruturação Postural Integrada (EPI)
Texto: Profª. Amélia Pasqual
Marques
ASPECTOS HISTÓRICOS
Com muita
freqüência, pessoas que procuram um fisioterapeuta fazem-no
para resolver algo que as incomoda. Na maioria das vezes,
a dor é a principal queixa. Diante desse quadro, é muito
freqüente o fisioterapeura ater-se aos sintomas arrolados
pelo paciente e desenvolver ações que os eliminam ou minimizam,
em geral com efeito apenas temporário. Desta forma, trata-se
o sintoma local e esquece-se que o corpo é um todo e que
a dor deve ter uma causa. Querer corrigir apenas o sintoma
é permitir que a causa da dor permaneça, ficando o paciente
eternamente dependente de tratamento fisioterápico.
Por
que esta situação se mantém? Um dos determinantes dessa
situação - que depõe contra o profissional de Fisioterapia
- reside na qualidade do ensino oferecido pela maior parte
dos cursos, que não preparam o fisioterapeuta para atuar
como profissional independente, não o capacitando para,
diante de um paciente, fazer o diagnóstico, propor medidas
terapêuticas adequadas que ataquem as raízes do problema,
nem avaliar o tratamento oferecido.
A
atualização de uma abordagem terapêutica adequada, que considere
o indivíduo globalmente, é um dos instrumentos fundamentais
para que o fisioterapeuta possa desenvolver esse tipo de
atuação, chegando até às causas dos sintomas, em condições
de propor soluções mais eficazes. A Reeducação Postural
Global é uma das abordagens que propõe uma visão corporal
integrada do indivíduo e, portanto, é especialemte adequada
para a formação do futuro profissional.
A
proposta de globalidade
No
início da década de 50, a terapeuta corporal francesa Françoise
Mézières elaborou, através de observação cuidadosa, uma
proposta de atuação que revolucionava a forma de trabalhar
o corpo: surgia assim a antiginástica. Como Mézièries praticamente
não deixou registros escritos, é através da obra de Thérèse
Bertherat, aluna entusiasta de um dos cursos que ministrou,
que temos acesso a sua proposta. Segundo a aluna, Mézières
foi pioneira ao perceber por exemplo, que
"o
deslocamento das massas do corpo - cabeça, barriga, costas
- faz com que as curvas vertebrais se acentuem. A cabeça
mantida para a frente obriga os músculos ligados às vértebras
num arco côncavo. O mesmo se verifica com os músculos inferiores
das costas em relação às vértebras lombares. E essa curva
e achatamento da musculatura posterior - que é o preço dos
nosso equilíbrio - só tendem a agravar-se com o correr dos
anos" (Bertherat, 1977, pp.119-20).
Mézières
já afirmava que a questão não está na "fraqueza"
da musculatura posterior, mas no excesso de força, sugerindo
então que a solução seria "soltar os músculos posteriores
para que eles libertem as vértebras mantidas num arco côncavo".
Mézières ia mais longe em suas considerações teóricas, afirmando
que "não é somente o esforço para ficar em equilíbrio
que encurta os músculos posteriores mas, também todos os
movimentos de média e grande amplitude executados pelos
braços e pernas, solidários com a coluna vertebral. Por
exemplo, toda vez que levantamos os braçoa acima dos ombros
ou toda vez que afastamos as pernas num ângulo superior
a 45 graus, os músculos das costas se encolhem: "A
retração, a contração dos músculos posteriores é sempre
acompanhada pela rotação interna dos músculos dos membros
e pelo bloqueio do diafragma"(Bertherat, 1977,
p. 120).
A
inovação proposta por Mézières pautou-se na seguinte observação:
cada vez que tentava tomar menos acentuada a curva de um
segmento da coluna vertebral, a curva era deslocada para
outro segmento. Desta forma, era necessário considerar o
corpo em sua totalidade e cuidar dele enquanto tal. A causa
única, porém, de todas as deformações era o encolhimento
da musculatura posterior, conseqüência inevitável dos movimentos
cotidianos do corpo.
Philippe-Emmanuel
Souchard ensinou o Método Mézières durante dez anos no Centro
Mézières, no sul da França. Fundamentou esta forma de trabalho
em seu profundo conhecimento de anatomia, biomecânica, cinesiologia,
osteopatia etc., campos que lhe permitiram embasar a técnica
hoje conhecida como Reeducação Postural Global (RPG).
Um
exemplo citado por Souchard mostra mais claramente como
se dá o processo de compensações num indivíduo, quando o
organismo "escolhe" a postura que minimize a dor
- o que muitas vezes dificulta a localização da dor inicial.
"Um
indivíduo é vítima de entorse do ligamento lateral interno
do joelho esquerdo. Imediatamente instala-se uma claudicação
antálgica que lhe permite andar sem sofrimento. A livre
movimentação do quadril esquerdo e da região sacro-lombar
fica afetada.Graças aos músculos espinhais, organiza-ae
uma compensação vertebral. Esta provoca, por exemplo, uma
hiperlordose mais acentuada na direita. Finalmente, o ombro
se eleva cada vez mais que o pé esquerdo toca o chão. Em
nével muscular, uma vez que o comprimento obtido não foi
devolvido espontaneamente, o ombro direito e a coluna fixam
a posição, caso essa dor não seja eliminada a tempo. Assim,
esse paciente pode chegar ao consultório muito tempo depois,
queixando-se de dor nas costas"(Souchard, 1984,
p.122)
Assim,
para chegar à causa da dor, é necessário utilizar posturas
especificas, que permitam perceber que qualquer tentativa
de abaixar o ombro elevado provoca pertubação cervical.
pelo encurtamento do trapézio superior, do angular e dos
escalenos. A correção simultânea dessa posição incorreta
do ombro e da nuca acentua a lordose lombar, sobretudo à
direita. A correção sempre simultânea dessa nova compensação
revela uma rotação interna do joelho (músculos) semitendíneo
e semimembranáceo). Por último, a recolocação do joelho
na posição correta em relação aos segmentos anteriores revela
a antiga lesão do joelho, que havia sido encoberta por mecanismos
de defesa.
Na
abordagem clássica dos problemas musculares, o corpo é tratado
de forma segmentada. Por exemplo, uma dor no ombro é geralmente
vista como um problema local e o tratamento envolve apenas
os músculos presentes nessa articulação. Já a proposta da
RPG considera o sistema muscular de forma integrada, em
que os músculos se organizam em cadeias musculares. Utilizando
esta técnica, o fisioterapeuta identifica o comprometimento
das cadeias musculares e, a partir daí, trata as causas
e as conseqüências.
Diz-se
que o homem fica em equilíbrio quando as oscilações de sua
linha de gravidade ocorrem dentro do polígono de sustentação,
onde a linha cairá naturalmente na frente da articulação
do tornozelo (ver modelo de normalidade do Kendall).
"Quando
a linha de gravidade sai do polígono de sustentação, são
necessárias manobras de reequilibração, as quais, por certo,
dispendem mais energia do que o simples controle das oscilações
da linha de gravidade no interior do polígono, quando o
indivíduo está em equilíbrio" (Souchard, 1984,
p.8).
Para
que os segmentos empilhados uns sobre os outros possam ficar
em equilíbrio, devem garantir uma certa regidez no nível
das articulações que os mantêm unidos. Por outro lado quando
há movimentos de pequena dinâmica, como andar, ou de grande
dinâmica (correr, por exemplo), cada uma das articulações
deve apresentar mobilidade em todos os seus eixos articulares.
Em dinâmica, um movimento é mais amplo quando precedido
por um alongamento muscular e, em estática, quanto mais
encurtado for o músculo, mais resistente será. Assim, estas
duas grandes funções articulares - estabilidade e mobilidade
- têm grande dificuldade em coexistir, por dependerem dos
mesmos músculos.
Conclui-se,
portanto, que manter esse equilíbrio por muito tempo é quase
impossível, uma vez que o homem moderno fica sujeito a muitas
agressões (físicas ou psicológicas) que, de alguma forma,
o levam a uma reequilibração constante. Assim, pode-se afirmar
que é impossível sobreviver sem que haja uma forma de defesa
contra todas essas agressões.
Segundo
Souchard (1986), nosso sistema de defesa fundamenta-se em
três aspectos: a) manter as funções hegemônicas; b) eliminar
o prevenir a dor; c) minimizar ao máximo as conseqüências
das agressões. Daí surge a definição de dois tipos de reflexos
de defesa: os antálgicos a priori que, antes de produzida
a dor, encontram uma forma de evitá-la, e os antálgicos
a posteriori que, após um traumatismo qualquer, ajudam a
encontrar um funcionamento compensatório para evitar sentir
a dor.
Como
vimos, os músculos organizam-se em cadeias musculares estáticas,
responsáveis por manter o indivíduo em equilíbrio. Segundo
(Souchard, 1985; Marques, 1999), são cinco as cadeias musculares:
respiratória, posterior, cadeia antero-interna da bacia,
anterior do braço e antero-interna da bacia, anterior do
braço e antero-interna do ombro.
Na
abordagem clássica os problemas musculares, o corpo é tratado
de forma segmentada. Por exemplo, uma dor no ombro é geralmente
vista como um problema local e o tratamento envolve apenas
os músculos presentes nessa articulação. Já a proposta de
globalidade considera o sistema muscular de forma integrada,
em que os músculos se organizam em cadeias musculares. Utilizando
esta técnica, o fisioterapeuta identifica o comprometimento
das cadeias musculares e, a partir daí, trata-se as causas
e as conseqüências.
MODELO
CLÁSSICO X MODELO GLOBAL
CLÁSSICO
1-
Em pé => é necessário uma força atrás
2- Para manter a posição, caso contrário, o homem cairia
para frente pelo excesso de peso de suas vísceras.
3- A gravidade é o principal inimigo da má postura, encurtamentos,
dores e deformidades. Ela joga o indivíduo para a frente.
4- Há uma causa para tudo => Músculos posteriores fracos.
5- Para se manter corretamente em pé, só há um remédio:
fortalecimento dos músculos paravertebrais e abdominais
mesmo nos indivíduos musculosos.
6- Problemas musculares e o corpo são vistos de forma segmentada.
7- Tratamento envolve somente a região comprometida.
8- Para recuperar a função deficiente é necessário exercitar.
MÉZIÈRE
1-
A posição em pé é uma posição de equilíbrio não é necessário
força para mantê-la.
2- A gravidade é nossa amiga e o equilíbrio se preserva
quando o centro de gravidade cai dentro do polígono de sustentação.
3- Os músculos posteriores não necessitam de mais força,
eles são encurtados. A hipertonia é a responsável pelos
males e deformidades.
4- O remédio não está em fortalecer os músculos, mas sim
combater o excesso de tonicidade através do alongamento.
5- O RPG considera o sistema muscular de forma integrada,
organizado em cadeias.
6- O tratamento é global e não considera somente a região
comprometida. A luta é contra os encurtamentos dos músculos
posteriores.
7- Para recuperar a função deficiente é necessário corrigir
uma forma alterada.
PORQUE
O TRABALHO EM CADEIAS?
-
Todos os movimentos solicitam os músculos das cadeias.
- Pela tonicidade constante e que nunca se relaxa totalmente,
as cadeias tem um papel de freio, gerando assim dores, deformações,
etc.
- Esses comprometimentos podem ser produzidos em qualquer
parte do corpo: tendinites nas escápulas, hálux valgo de
joelhos, hiperextensão de joelhos, etc.
- Todas as alterações provocadas pela hipertonia das cadeias
são corrigíveis, mesmo nos adultos.
Proposta
dos curso de Reeducação Postural Global - Estruturação Postural
Integrada (RPG-EPI)
-
Preparar o fisioterapeuta para uma atuação independente.
- Capacitá-lo para realizar uma avaliação global e que dela
seja tirado o diagnóstico da disfunção original.
- Propor medidas terapêuticas adequadas que tratem a raiz
do problema e possa ainda ter condições de avaliar o tratamento
oferecido.
- Aprender a ver e avaliar o ser humano de forma global
e integrada.
- Aprender e eleger o recurso ou técnica fisioterapêutica
mais adequada para sanar o problema desse indivíduo.
INSTALAÇÃO
E PROGRESSÃO DAS POSTURAS
Ângulo
aberto dorsal - Rã no chão
Cliente em decúbito dorsal, braços ao longo do corpo sem
esforço
- Pompage global
- Pompage do esterno (osso)
- Manobra de abaixamento de costelas
- Posicionamento ou tracionamento do sacro
- Relaxamento respiratório
- Pés em rã ( no chão)
- Tracionamento da nuca (sem retificação)
- Posicionamento da cintura escapular
- "escorregar" os calcanhares no chão
- dorsiflexão no chão
Ângulo fechado dorsal
- Rã no ar
Cliente em decúbito dorsal. Braços caem ao longo do corpo
sem esforço
- Pompage global
- Pompage do esterno (osso)
- Manobra de abaixamento de costelas
- Posicionamento ou tracionamento do sacro
- Segurar pelos calcâneos e subir as pernas com rotação
lateral dos joelhos e abdução de coxo-femural
- Alinhamento da cabeça e ombros
- Relaxamento respiratório
- Dorsiflexão dos pés (com manutenção da cabeça, ombros
e sacro)
- Elevação das pernas com pés paralelos ao teto
OBSERVAÇÃO
As
compensações que se instalam durante a postura devem ser
corrigidas, se possível, mantendo sempre a tensão com auxílio
da respiração.
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